Notícias Notícias Destaque

A chegada dos medicamentos análogos de GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, está mudando não apenas o tratamento da obesidade, mas também a forma como pacientes percebem a doença, o emagrecimento e a própria relação com o corpo. Esse novo cenário será incorporado à atualização das Diretrizes Brasileiras de Assistência Psicológica em Cirurgia Bariátrica e Metabólica, que está em elaboração pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

A informação foi antecipada pelo psicólogo Cícero Nunes Menezes (DF), durante a palestra “Novos Rumos do Tratamento da Obesidade e Condutas do Psicólogo. Que Momento é Esse e Como Vamos nos Adaptar?”, realizada na Sala Congonhas – Saúde Mental, no primeiro dia do XXVI Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, em Belo Horizonte (MG).

Segundo Menezes, as novas diretrizes, ainda não publicadas, atualizam o documento construído a partir do consenso de 2014 e ampliam a atuação psicológica para as diferentes fases do tratamento da obesidade. A proposta considera tanto a cirurgia quanto o tratamento medicamentoso e as mudanças provocadas pelos análogos de GLP-1.

Em face da velocidade de emagrecimento das canetas, entre os pontos antecipados estão a necessidade de trabalhar expectativas sobre velocidade e magnitude da perda de peso, mudanças nos sinais de fome e saciedade, relação com a comida, rede de apoio e dinâmica familiar. O acompanhamento também deve abordar o medo de recuperar o peso após a interrupção do medicamento, além de frustração, culpa, comparação com resultados de outras pessoas e adesão ao tratamento no longo prazo.

“A gente precisa trabalhar expectativas sobre velocidade e magnitude da perda de peso”, destacou o psicólogo, ao citar situações em que o paciente estabelece metas relacionadas a eventos específicos, como perder 20 quilos em um mês para um casamento.

A nova perspectiva também amplia a avaliação psicológica. Além da história da obesidade e dos tratamentos anteriores, devem ser considerados saúde mental, comportamento alimentar, imagem corporal, expectativas, compreensão das opções terapêuticas, rede de apoio, contexto socioeconômico, acesso ao cuidado e recursos de enfrentamento.

A proposta, segundo Menezes, parte de uma mudança central: a obesidade é uma doença crônica e seu tratamento precisa ser acompanhado ao longo da vida, independentemente do método escolhido. Nesse cenário, a psicologia tem papel na psicoeducação, no autocuidado, na prevenção da interrupção do tratamento e na redução da culpa atribuída ao paciente.

Saúde mental vai além do peso

A programação da Sala Congonhas começou com a mesa “Saúde Mental e Obesidade: O Que Ainda Não Falamos?”, moderada por Daniela Silva Chianca (DF), com Alice de Freitas Calixto (MA), Laura da Costa Diniz (MG) e Gustavo Patury Accioly (SP) como debatedores.

Patricia Queiroz Ferreira de Brito (DF) abordou a entrevista motivacional como ferramenta para fortalecer a motivação e o comprometimento com mudanças comportamentais após a cirurgia. Larissa Torres Cunha Barros (RJ) discutiu o preparo pré-operatório de pacientes com transtornos psiquiátricos graves. Alex Santos Rocha (RJ) tratou dos desafios relacionados ao espectro autista e à obesidade.

Caroline Moraes Amaral Blat Migliorini (SP) falou sobre burnout, culpa e silêncio diante de eventos adversos. Cristina Cardoso Freire (SP) abordou mitos e realidade sobre cirurgia bariátrica, cirurgia metabólica e suicídio. Já Glauber Higa Kaio (PR) discutiu os riscos do “loss of control”, ou perda de controle alimentar, no desfecho da cirurgia.

Na segunda mesa da manhã, “Quando o Peso Não é o Maior Problema”, a discussão foi moderada por Barbara Carolina Haguenauer Scaffa Falcao (RJ), com Celia Moraes Leite Cabral Campelo (AL), Mariangela Leme de Almeida de Paolis (SP), Antelmo Sasso Fin (ES) e Ana Carolina Caldeira Carvalho Fernandes (DF) nos debates.

Alef Alves Lemos (RS) discutiu como a imagem corporal influencia expectativas, adesão e decisão pela cirurgia. Viviane Torres (SE) abordou a saúde da mulher e o que pode estar por trás do desejo de operar. Sonia Regina Nunes (SP) tratou do envelhecimento de pacientes já operados. Thais Costa (GO) chamou atenção para a necessidade de retomar o trabalho sobre estigma no tratamento da obesidade.

Psicologia diante das novas terapias

À tarde, a mesa “Interface Mente-Corpo na Obesidade: Do Vínculo Terapêutico às Novas Terapias”, moderada por Natalia Coutinho (RJ), reuniu Romeo Lage Simões (MG), Thais Maynart Machado (SE), Henrique da Silva Candido (PB) e Carolina Trancoso de Almeida (MG).

Leorides S. Duarte-Guerra (SP) discutiu transferência e contratransferência na relação entre profissional e paciente. Marcela Abreu Rodrigues (DF) abordou o papel da psicoterapia diante da recidiva da obesidade e do uso de análogos. Hilma Ribeiro Silva (RJ) falou sobre os desafios para implantação do serviço de cirurgia bariátrica e metabólica no SUS, enquanto Ana Lucia Ivatiuk (PR) discutiu o que os profissionais de saúde mental precisam compreender diante dos tratamentos injetáveis para obesidade.

Gabriela Lemos Negri Rique (PB) abordou sono e obesidade. Taís Grespan Souza (SP) tratou dos efeitos de relacionamentos abusivos e transtornos alimentares como barreiras ao tratamento.

Redes sociais, inteligência artificial e novos desafios

A última mesa do dia, “Tecnologia, Saúde Mental e Cirurgia Bariátrica: O Presente e o Futuro”, teve Marcia Michel Khalil (RJ) como moderadora e Priscila Pádua (SP), Thaina de Castro Benatto Ferreira (MT), Fernanda Martins de Oliveira (MG), Marcos Ros Zambelli de Almeida (MG) e Cláudio Renato Penteado de Luca Filho (SP) como debatedores.

Lia Cristina Mello Pellini Vieira (RJ) discutiu os riscos das redes sociais para o desenvolvimento de transtornos alimentares, a partir da teoria da comparação social. Segundo a apresentação, conteúdos relacionados a dietas, exercícios e aparência podem ampliar a insatisfação corporal e comportamentos alimentares inadequados. A palestra também chamou atenção para o cuidado específico com pacientes bariátricos, que podem apresentar mudanças na relação com comida e corpo após a cirurgia.

Na sequência, Alef Alves Lemos (RS) abordou “IA e os Novos Horizontes da Psicologia”. A inteligência artificial pode auxiliar na organização da consulta, na seleção de instrumentos e na otimização do trabalho clínico, mas não substitui a avaliação profissional. Entre os pontos destacados estão segurança digital, letramento em dados, transparência com o paciente e revisão das informações produzidas pelas ferramentas.

Vanessa Silva Maia (RJ) discutiu o chamado “food noise”, caracterizado por pensamentos persistentes e intrusivos relacionados à comida. Segundo a psicóloga, o termo não é novo. Mas o fenômeno ganhou visibilidade com os medicamentos que alteram o apetite. Ela ressaltou, porém, que pensar em comida não significa necessariamente ter uma doença e que é preciso diferenciar pensamentos cotidianos de um padrão compulsivo.

Carolina Mocellin Ghizoni (PR) encerrou a programação discutindo o acompanhamento psicológico longitudinal e os desafios da adesão. A continuidade do cuidado permanece central, especialmente diante de pacientes que podem acreditar que o medicamento, sozinho, é suficiente. “O futuro do acompanhamento psicológico não é necessariamente mais consultas. É identificar quem precisa, de que e em que momento intervir antes da recaída”, afirmou.

Fechando a programação, Lis Marina Lopes Lazzarini (SP) abordou a saúde mental dos profissionais de saúde. A palestra destacou fatores como sono, atividade física, carga de trabalho, ensino e experiência. A conclusão foi que cuidar de quem cuida está relacionado à segurança do paciente, à sustentabilidade do sistema de saúde e à responsabilidade ética dos profissionais.

To top