Notícias Notícias Destaque

As cirurgias ileais, indicadas especialmente para pacientes com obesidade mais grave e algumas condições metabólicas associadas, exigem acompanhamento nutricional ainda mais cuidadoso. A necessidade de individualizar a ingestão de proteínas, monitorar vitaminas e minerais e garantir adesão à suplementação esteve entre os principais pontos discutidos na manhã do XXVI Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica.

A mesa “Abordagem multidisciplinar das cirurgias ileais”, realizada na Plenária Tiradentes, foi moderada por Leonardo Porto Sebba (GO), com Aristotenis Cardoso Cruz (DF), Fernanda Mattos (RJ), Carlos Frota Dillenburg (RS) e Sergio Santoro dos Santos Pereira (SP) como debatedores.

Na abertura, Anna Carolina Batista Dantas (RN) apresentou um panorama dos resultados das cirurgias ileais e discutiu possíveis diferenças entre procedimentos primários e revisionais. A palestra também mostrou como diferentes países vêm incorporando e regulamentando essas técnicas em seus sistemas de saúde.

Proteína precisa ser individualizada

A suplementação proteica foi tema da apresentação de Vanessa Vieira Lourenço Costa (PA), que destacou a importância da ingestão adequada para preservar a massa muscular, especialmente nos primeiros meses após a cirurgia.

Segundo a nutricionista, muitos estudos trabalham com uma ingestão mínima de 60 gramas de proteína por dia. Para pacientes com obesidade grave, porém, esse valor pode ser insuficiente. Dependendo da técnica cirúrgica, da evolução nutricional e das características individuais, a necessidade pode chegar a 120 gramas diárias.

A palestrante citou estudos que associam ingestão inferior a 60 gramas por dia a maior perda de massa livre de gordura. Em outra pesquisa, com 621 pacientes, a ingestão média ficou entre 60 e 80 gramas, indicando que há espaço para melhorar o consumo proteico após a cirurgia.

A atividade física também apareceu como parte dessa estratégia. Segundo os dados apresentados, maior ingestão de proteína associada ao exercício contribuiu para o aumento da força muscular.

Vanessa apresentou ainda diferentes opções de suplementação, como whey concentrado, isolado e hidrolisado, além de caseína, proteínas de soja, ervilha e arroz, blends vegetais e colágeno. A escolha depende das características do paciente, da técnica utilizada e da tolerância alimentar.

A orientação central foi que a meta não seja padronizada para todos os pacientes. “Suplementação proteica nas ileais, quanto? Depende de acompanhamento. A meta precisa ser alcançável, monitorada e ajustada ao longo do tempo. Importante é individualizar”, resumiu.

Quanto mais distal, maior a atenção nutricional

Silvia Leite (DF) abordou a reposição de micronutrientes nas cirurgias ileais, comparando as necessidades de suplementação com as observadas em procedimentos como bypass e sleeve.

Um dos fatores destacados foi a posição mais distal da anastomose. Quanto maior a alteração do trânsito intestinal e da absorção, maior pode ser a demanda nutricional, com possibilidade também de sintomas como diarreia e esteatorreia.

A palestrante apresentou dados de acompanhamento de pacientes submetidos em diversas técnicas cirúrgicas, mostrando a ocorrência de deficiências nutricionais ao longo do seguimento e reforçando a necessidade de monitoramento contínuo.

Quando o resultado começa a trazer riscos

Na palestra “Quando o sucesso se torna complicação: qual o limite entre resultado excelente e risco nutricional?”, Denis Pajecki (SP) discutiu o equilíbrio entre a eficácia das técnicas ileais e os riscos associados à maior alteração da absorção de nutrientes.

Um dos desafios apontados foi justamente a adesão à suplementação e ao acompanhamento. Dados apresentados pelo médico mostram que, em uma pesquisa de longo prazo, apenas cerca de um terço dos pacientes fazia uso regular da suplementação. A adesão ao seguimento também permanecia baixa, com média de aproximadamente 50% após um ano.

Para Pajecki, técnicas mais absortivas podem exigir suplementação mais intensa e acompanhamento mais próximo. As cirurgias ileais são consideradas especialmente em pacientes com obesidade mais grave e alterações metabólicas importantes, como diabetes tipo 2 de difícil controle.

O acesso à suplementação também precisa ser considerado, já que as condições socioeconômicas podem interferir diretamente na continuidade do cuidado.

Mesmo com a expansão das técnicas ileais, o especialista destacou que bypass gástrico e sleeve continuam como referências importantes na cirurgia bariátrica.

O debate final reuniu os participantes da mesa e retomou a necessidade de equilibrar os benefícios das diferentes técnicas com a segurança nutricional. A discussão reforçou que o resultado cirúrgico não deve ser avaliado apenas pela perda de peso: preservação muscular, estado nutricional, suplementação e acompanhamento de longo prazo também fazem parte do desfecho.

To top