Amputações de pés e pernas em decorrência do diabetes bateram recorde no último ano e gastos do sistema público acumulam R$ 799 milhões ao longo da série histórica

O Brasil acaba de atingir a marca de 282 mil amputações de membros inferiores pelo Sistema Único de Saúde (SUS), entre janeiro de 2012 e maio de 2023. Apenas no ano passado, esse número atingiu a marca de 31.190 procedimentos, equivalente a uma média de 85 amputações por dia.
Os dados da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), revelam ainda que mais da metade das amputações envolvem pacientes com diabetes, destacando a necessidade de um controle mais eficaz dessa condição.
Além disso, muitos pacientes chegam ao consultório médico já com complicações avançadas devido ao desconhecimento de seu estado de saúde. O impacto das amputações no sistema público de saúde é significativo, consumindo recursos substanciais. Em 2022, foram gastos R$ 78,7 milhões em procedimentos de amputação, totalizando R$ 799 milhões ao longo da série histórica.
O presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM), Dr. Antônio Carlos Valezi, expressa preocupação com esses números alarmantes e ressalta a necessidade urgente de abordagens mais eficazes para o tratamento do diabetes.
“Nós atingimos uma lamentável cifra de amputações devido ao diabetes. Isso poderia ser evitado. Além do dinheiro público, existe também uma repercussão social, pessoal, familiar e de trabalho que é muito difícil de mensurar. Imagine perder um membro, como será ir ao trabalho? Como será o seu dia a dia?”, questiona Valezi. “Um dos tratamentos para evitar esse desfecho é justamente a cirurgia metabólica”, reforça o presidente da SBCBM.
Incidência e tratamento cirúrgico do diabetes – O Brasil é o sexto país em incidência do Diabetes no mundo e o primeiro na América Latina. São 15,7 milhões de pessoas adultas com esta condição, e a estimativa é que, até 2045, a doença alcance 23,2 milhões de adultos brasileiros. Cerca de 90% dos casos de diabetes no mundo são do Tipo 2, que está relacionado com o excesso de peso e resistência à insulina, segundo a Federação Internacional de Diabetes.
A boa notícia é que existem abordagens inovadoras para tratar o diabetes antes que ele leve a desfechos tão trágicos quanto a amputação. Para pessoas que não conseguem controlar a doença com medicamentos, a cirurgia metabólica é uma uma técnica regulamentada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) em 2017 para tratar pacientes com Diabetes Tipo 2 e obesidade leve.
“O procedimento pode ser indicado nos casos em que o diabetes não tem possibilidade de controle clínico com medicamentos e outras medidas comportamentais. A cirurgia metabólica envolve alterações no tubo digestivo que resultam em mudanças hormonais e intestinais, levando à remissão do diabetes em muitos pacientes. É uma abordagem que oferece esperança e a oportunidade de evitar amputações”, explica o Valezi.
Recentemente, um estudo publicado na revista Lancet em 2022, uma das principais revistas científicas do mundo, apontou que a cirurgia metabólica é um procedimento eficaz para redução do diabetes. Em um período de dois anos, a doença crônica atingiu a remissão em estágio inicial em pacientes com diabetes tipo 2 e obesidade leve, com IMC de 30 a 35.
Um dos autores do estudo e coordenador médico do Centro de Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Ricardo Cohen, destaca que, como outras doenças crônicas e progressivas, a dificuldade de controlar o diabetes está diretamente relacionada à falta de adesão do paciente ao tratamento.
“Requer uma utilização da medicação por toda a vida. As complicações podem ser evitadas com a medicação, e quando a melhor medicação tem resposta subiótica, seja porque os pacientes não respondem ou porque o paciente e o sistema de saúde não têm recursos financeiros para mantê-los, a cirurgia metabólica está indicada”, diz. “A cirurgia já tem resultados muito interessantes no controle do peso, da glicemia, das doenças microvasculares, portanto, em políticas de saúde, talvez quando a primeira abordagem clínica não tiver resposta esperada, a cirurgia metabólica será uma grande opção terapêutica para que a gente consiga diminuir as complicações, amputações e mortes”, conclui Cohen.
Planos de Saúde não querem cobrir a cirurgia
Mesmo com o avanço que representa a cirurgia metabólica, em 2019 a ANS negou a sua incorporação no rol de procedimentos cobertos pelos planos de saúde. “O procedimento Recebeu 1552 contribuições, 99% eram favoráveis à incorporação. No entanto, segundo a Agência Nacional, o procedimento ficou de fora porque não é custo-efeitvo”, explica Marcos Leão Vilas Bôas, cirurgião e autor da contribuição feita durante a consulta pública da ANS em nome da SBCBM.
Em contrapartida, dados do Estudo de Impacto Orçamentário apresentado pela SBCBM para ANS, incorporar a cirurgia metabólica custaria aos planos de saúde, em média, 10 centavos por usuário por mês. Técnicos da agência refizeram os cálculos e encontraram valores em torno de 18 centavos por usuário.
Quem pode fazer a cirurgia metabólica?
- Paciente precisa ter diabetes miellitus tipo 2 e ter IMC entre 30 kg/m² e 34,9 kg/m²
- Paciente precisa ter mais de 30 anos e no máximo 70 anos
- Paciente precisa ter diabetes miellitus tipo 2 há menos de 10 anos
- A indicação cirúrgica precisa ser feita por dois médicos especialistas em endocrinologia
- Para indicação, é necessário um parecer que mostre que o paciente apresentou resistência ao tratamento clínico com antidiabéticos orais e/ou injetáveis, mudanças no estilo de vida e que compareceu ao endocrinologista por no mínimo dois ano