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A diretoria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica participou, nesta sexta-feira (15), de forma inédita, em Brasília, de uma reunião do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS) para apresentar uma proposta para o enfrentamento da obesidade no país em seus diferentes estados: a criação dos Centros de Tratamento da Obesidade (CTOs) no Sistema Único de Saúde (SUS).

“Mais uma vez mostramos protagonismo e o caminho para que os CTOs sejam estruturados”, afirmou o presidente da SBCBM, Dr Juliano Canavarros.

A iniciativa surge em meio a um cenário considerado crítico por especialistas. “O Brasil está perdendo o controle do tratamento da obesidade”, alerta o presidente da SBCBM, Dr Juliano Canavarros. Isso se deve a dois fatores centrais: o uso indiscriminado das chamadas “canetas emagrecedoras”, muitas vezes sem acompanhamento médico e com produtos de origem irregular, e a existência de uma “fila invisível” para a cirurgia bariátrica no SUS.

Os CTOs têm como objetivo ampliar e democratizar o acesso ao tratamento da obesidade grave, estruturando uma rede semelhante à dos hospitais oncológicos. A proposta prevê atendimento multidisciplinar, com equipes capacitadas para diagnóstico precoce, acompanhamento contínuo e encaminhamento adequado, reduzindo o estigma enfrentado pelos pacientes.

Hoje, menos de 1% dos brasileiros com indicação para a cirurgia conseguem realizar o procedimento. No SUS, o cenário é ainda mais crítico: cada estado possui um número restrito de vagas, sem transparência sobre a capacidade mensal de atendimento. Para a SBCBM, isso cria uma “fila invisível”, que impede o planejamento e prolonga o sofrimento dos pacientes.

Paralelamente, cresce o uso de medicamentos para emagrecimento sem supervisão médica adequada. Especialistas alertam para o risco de automedicação, uso de substâncias sem procedência — muitas vezes adquiridas ilegalmente em países vizinhos — e abandono de tratamentos estruturados, o que pode agravar quadros clínicos e gerar novas demandas ao sistema de saúde.

Para o secretário executivo do Conass, Jurandi Frutuoso, o Diálogos Conass se consolidou como um espaço estratégico para aprofundar discussões sobre temas prioritários da saúde pública brasileira e construir encaminhamentos concretos para o fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS). “O avanço dessas condições crônicas representa um desafio importante para o SUS, especialmente diante do impacto na qualidade de vida da população e na crescente demanda por serviços de saúde”, afirmou.

Jurandi destacou ainda que o debate sobre obesidade exige uma abordagem ampla e integrada, envolvendo prevenção, assistência, organização da rede de atenção e atualização das políticas públicas voltadas ao tema. “Enquanto a rede privada realizou pouco mais de 100 mil procedimentos em 2024 e 2025, o SUS respondeu por apenas um décimo desse total”, comentou sobre os dados do Vigitel. 

Outro ponto destacado foi a necessidade de atualização da política nacional de obesidade, cuja portaria vigente foi criada em 2013. Segundo ele, as transformações ocorridas nos processos de gestão, atenção à saúde e programas estratégicos ao longo dos últimos anos reforçam a necessidade de revisão e modernização das políticas públicas voltadas ao tema.

O diretor de certificação, cursos e congressos da SBCBM, dr Luiz Vicente Berti, destacou a preocupação com toda a cadeia do tratamento da obesidade no país. “Sabemos que desde o primeiro atendimento pelo SUS até o dia da cirurgia, são anos de fila de espera e exames que acabam sendo perdidos, com gasto de dinheiro público, e a piora na qualidade de vida da saúde da população que espera o tratamento. Estamos propondo um atendimento diferenciado com os CTOS”, explicou Berti.

O Dr Luiz Fernando Córdova, diretor societário, complementou dizendo que o Conass foi muito receptivo ao projeto que utiliza a estrutura já existente do SUS para atender os pacientes que aguardam na fila pelo atendimento e não conseguem ter acesso. “Conseguimos mostrar que existe uma forma de atender adequadamente e precocemente o paciente que está na fila do SUS”, declarou.

O cenário da obesidade

A obesidade já é um dos maiores desafios de saúde pública do Brasil. Dados da World Obesity Federation indicam que 68% da população brasileira apresenta excesso de peso — sendo 37% com sobrepeso e 31% vivendo com obesidade. Mais do que uma questão individual, o problema impacta diretamente a sustentabilidade do sistema de saúde.

A obesidade avança em ritmo acelerado no Brasil e já acende um alerta para a saúde pública. Em menos de duas décadas, o número de adultos brasileiros com obesidade cresceu 118%, passando de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, segundo dados da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) 2025, divulgada pelo Ministério da Saúde.

O levantamento também mostra o crescimento expressivo de outras doenças crônicas no mesmo período, como diabetes (135%), excesso de peso (47%) e hipertensão arterial (31%). Os dados revelam um cenário preocupante e reforçam a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas à promoção da saúde, prevenção de doenças e incentivo a hábitos saudáveis, como alimentação equilibrada e prática regular de atividades físicas.

Além do impacto clínico, os custos são crescentes. Em 2022, o SUS destinou cerca de R$1,5 bilhão ao tratamento de doenças associadas ao excesso de peso. Na saúde suplementar, um único paciente com obesidade pode gerar custos de até R$33 mil por ano. Projeções da revista BMJ Global Health indicam que, mantida a tendência atual, até 88% da população brasileira poderá estar acima do peso até 2060, com impacto econômico superior a R$1,3 trilhão.

O cirurgião  bariátrico, professor e economista, que já atuou como secretário de saúde no Alagoas e como superintendente de planejamento, Dr Hebert Motta de Almeida, acredita que serviços de tratamento da obesidade de alta complexidade devem ser mais custo efetivo para o país. “Apesar de a cirurgia bariátrica ser considerada o tratamento mais eficaz e duradouro para casos de obesidade grave — especialmente quando associada a doenças como diabetes, hipertensão, apneia do sono e problemas articulares — o acesso ao procedimento ainda é extremamente limitado”, afirma.

Diante desse cenário, a SBCBM defende que a criação dos Centros de Tratamento da Obesidade seja tratada como prioridade nacional. A proposta apresentada ao Conass busca não apenas ampliar o acesso à cirurgia bariátrica, mas organizar toda a linha de cuidado, desde a prevenção até o tratamento especializado.

O enfrentamento da obesidade exige uma resposta sistêmica, coordenada e baseada em evidências. “Sem isso, continuaremos enxugando gelo enquanto a doença avança em ritmo acelerado no país”, reforça a entidade o presidente da SBCBM.

Já o  Dr Igor Marreiros, que atua no Sistema Público do Rio Grande do Norte, conta que a SBCBM mostrou como a  obesidade afeta todas as linhas de cuidados e que o tratamento com efetividade pode ser uma grande solução para o sistema público de saúde. O cirurgião do Ceará, professor e cirurgião Luiz Moura, disse que uma mudança é fundamental para que o SUS cumpra sua missão no tratamento da obesidade grave. “O Ministério da Saúde está preocupado e quer que isso aconteça”, declarou.

“A reunião resultou na proposta de criação de Centros de Tratamento da Obesidade (CTOs) que têm como objetivo central ampliar e democratizar o acesso ao tratamento da obesidade grave no âmbito do SUS, em resposta à demanda epidemiológica e às desigualdades sociais regionais

A ideia é que os CTOs funcionem, assim como Hospitais do Câncer atuam, no tratamento da obesidade, com equipes multidisciplinares capacitadas, garantindo a triagem precoce e encaminhamento adequado, sem estigma negativo, ao paciente que procura apoio.

Segundo dados mostrados, cerca de 22% do orçamento federal, de R$84 bilhões para doenças de alta e média complexidade, está sendo aplicado em doenças relacionadas à obesidade. O SUS completou 35 anos e tem 17 políticas de atenção à saúde, mas nenhuma delas é uma política de prevenção da obesidade, mas sim uma linha de cuidado, dentro da política de atenção às doenças crônicas, o que é muito diferente de política pública com orçamento próprio.

Fila para bariátrica 

Também foram questionados aspectos como a falta de regulação nos hospitais públicos e de controle da fila de pacientes que aguardam pela cirurgia bariátrica nos estados.

“Precisamos olhar É um projeto para o Brasil, do tratamento clínico ao tratamento cirúrgico, para quem realmente precisa”, disse o diretor do Conselho Consultivo da SBCBM, Dr Fábio Viegas.O presidente do Conselho Consultivo da SBCBM, Dr Fábio Viegas, trouxe como exemplo o estado do Rio de Janeiro, que no ano de 2024, contabilizava um tempo de  espera médio de 403 dias para a cirurgia bariátrica, segundo a SES-RJ, com 3.698 pacientes esperando a 1ª consulta ambulatorial especializada. Todos com indicação para a cirurgia bariátrica no sistema de regulação da SES-RJ.

“Além disso, a regulação no Estado feita de forma cronológica, com prioridade para pacientes mais velhos (próximos de 65 anos), pode não priorizar os casos mais graves . Também há disparidades entre o que as diretrizes (como as do CFM) permitem e o que o SUS efetivamente realiza, por limitação de recursos e infraestrutura” , disse Viegas

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