O terceiro dia de atividades do 25º Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (CBCBM), nesta sexta-feira (24), foi marcado por uma ampla e muito rica discussão sobre os desafios e os avanços da cirurgia bariátrica no Sistema Único de Saúde (SUS). Profissionais de diferentes regiões do país debateram o tema em duas rodadas de workshops na Sala Rio Paraná, destacando experiências bem-sucedidas, gargalos de gestão e caminhos possíveis para ampliar o acesso da população brasileira ao tratamento cirúrgico da obesidade, já que mais de 70% dos brasileiros dependem do SUS para cuidar da sua saúde.
O Workshop de “Cirurgia Bariátrica e Metabólica no Sistema Único de Saúde” foi aberto pelo moderador Dr. Gustavo Peixoto Soares Miguel (ES) e contou com debatedores de peso: Fabiana França Pelegrini (SP), Paulo Fernando Regina (SP), Wilson Rodrigues de Freitas Júnior (SP) e Ana Carolina Caldeira Carvalho Fernandes (DF).
Na palestra de abertura “Diagnóstico situacional do acesso à cirurgia bariátrica e metabólica financiada pelo SUS – Qual a Jornada dos pacientes?”, Carlos Armando Ribeiro dos Santos (PA) apresentou um diagnóstico situacional sobre o acesso à cirurgia bariátrica pelo SUS, mostrando que o país ainda enfrenta longas filas e desigualdade regional. Ele ressaltou a necessidade de integração entre os níveis de atenção e de um sistema regulatório que garanta prioridade clínica, não apenas administrativa.
Na sequência, Mônica Mazzurana (SP), do Hospital Guilherme Álvaro, conduziu a fala “Por que operamos tão pouco? Barreiras no acesso ao tratamento cirúrgico”. Ela discutiu as barreiras no acesso ao tratamento cirúrgico, destacando a escassez de equipes habilitadas e a percepção equivocada, inclusive entre profissionais de saúde, de que dieta e exercícios seriam suficientes para tratar todos os casos. E que é preciso quebrar o preconceito institucional contra a cirurgia bariátrica para salvar vidas e ser reconhecida como tratamento efetivo.
A professora Fernanda Mattos (RJ), da UFRJ, abordou os gaps no tratamento da obesidade no SUS, questionando a passagem direta da dietoterapia à cirurgia sem um manejo estruturado da doença. Ela defendeu que o cuidado deve ser contínuo e multiprofissional, com foco na prevenção da recidiva e no acompanhamento pós-operatório.
A nutricionista Mariana Silva Melendez Araújo (DF) falou sobre os desafios no seguimento a longo prazo, ressaltando que a adesão dos pacientes cai significativamente após o primeiro ano. “A obesidade é uma doença crônica e o paciente nunca deveria receber alta”, disse, defendendo a criação de protocolos de acompanhamento vitalício dentro do SUS.
O economista e pesquisador Herbert Motta de Almeida destacou, em sua palestra sobre políticas públicas de prevenção e tratamento da obesidade, que o país já possui diretrizes e leis em andamento, mas ainda carece de integração e cofinanciamento entre esferas de governo. Ele apresentou dados econômicos que mostraram o impacto positivo da cirurgia bariátrica:
“A cirurgia bariátrica não é despesa. Ela é investimento com retorno econômico e social comprovado.”
Encerrando a primeira rodada, Anna Carolina Batista Dantas (RN) tratou dos desafios do estadiamento da obesidade, questionando a priorização automática de pacientes superobesos (IMC acima de 50) em detrimento de casos clínicos mais graves. “Precisamos parar de olhar só para o número do IMC e considerar o contexto metabólico e social do paciente”, afirmou.
O debate final reforçou a urgência de uma política pública nacional integrada, com protocolos unificados de atendimento, financiamento adequado e valorização das equipes multiprofissionais. O momento mais aplaudido foi a fala do Dr. Wilson Rodrigues de Freitas Júnior (SP), que defendeu que o tema do SUS ocupe posição central nas próximas plenárias da SBCBM:
“Estamos discutindo políticas que atingem só 1% da população com obesidade grave. Precisamos olhar para os 99% que dependem exclusivamente do SUS.”
Como viabilizar e ampliar a bariátrica financiada pelo SUS
A segunda parte da manhã trouxe o workshop “Quero trabalhar com cirurgia bariátrica e metabólica com financiamento SUS – Como faço?”, moderado por Igor Marreiros Pereira Pinto (RN) e debatido por Sizenando Ernesto de Lima Júnior (CE), Luciana Teixeira de Siqueira (PE), José Nowicki Mustafá e Aluisio Stoll (SC).
O painel começou com Gustavo Peixoto Soares Miguel (ES) apresentando os modelos de assistência e financiamento da cirurgia bariátrica no Brasil, explicando o funcionamento da tabela SUS, os incentivos estaduais e a importância das emendas parlamentares para a manutenção de programas de alta complexidade.
Em seguida, Izabel Cristina Brunoro Hoppe (ES) detalhou o passo a passo para o cadastramento de novos serviços bariátricos, destacando os requisitos técnicos e burocráticos para credenciamento junto ao Ministério da Saúde e a importância de equipes multidisciplinares qualificadas.
O médico Herbert Motta de Almeida compartilhou a experiência de implantação de um centro de alto volume no SUS, destacando que a padronização de protocolos e o treinamento de equipes regionais permitiram dobrar o número de cirurgias em menos de dois anos.
Na palestra sobre videolaparoscopia no SUS, Luiz Gustavo de Oliveira e Silva (RJ) mostrou que o método é tecnicamente viável e financeiramente sustentável. “Não é caro. É questão de gestão”, afirmou, explicando que a cirurgia laparoscópica permite alta hospitalar em até 24 horas, reduzindo custos e internações prolongadas.
Casos de sucesso inspiraram os participantes
De Salvador (BA), Creilson Almeida da Campos relatou o modelo de um hospital público que combinou bariátrica e acompanhamento multiprofissional, com impacto positivo na redução do IMC e melhora da qualidade de vida.
Já Edson Antonacci Júnior (MG) apresentou o caso da Santa Casa de Misericórdia de Patos de Minas, que realizou 234 cirurgias em dois anos com um modelo de desospitalização domiciliar e financiamento híbrido, o que leva à remuneração de R$ 17 mil por uma cirurgia. “Levar a bariátrica ao paciente é garantir dignidade, saúde e oportunidade de recomeço”, declarou.
Encerrando, Marco Aurélio Santo Filho (SP) apresentou o case do Hospital Municipal Gilson de Cássia Marques de Carvalho, gerido pelo Hospital Israelita Albert Einstein, onde a parceria público-privada possibilitou a criação de um serviço de cirurgia bariátrica robótica pioneiro em São Paulo.
O debate final dessa rodada consolidou uma mensagem de otimismo e compromisso. Apesar dos desafios de financiamento, credenciamento e logística, os palestrantes reforçaram que é possível oferecer cirurgia bariátrica de excelência no SUS, desde que haja boa gestão, integração e vontade institucional. E o debate encerrou com o propósito de criar um grupo de trabalho, para unificar as diretrizes e levar mais cirurgias bariátricas para o SUS. “A diferença entre fazer e não fazer é fazer”, resumiu dos debatedores.