A manhã desta sexta-feira (24) foi marcada por duas rodadas intensas de palestras no 25º Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (CBCBM). A primeira, dedicada à desconstrução do estigma da obesidade, abordou o impacto social, psicológico e midiático que ainda cerca a doença e seus tratamentos. Na sequência, representantes da ABESO, SBEM e SBCBM se reuniram em uma mesa conjunta para debater os avanços científicos e econômicos no tratamento da obesidade, incluindo o papel dos novos medicamentos e da cirurgia bariátrica no cenário atual.
Moderada por Osiris Cerqueira Casais e Silva (BA), a plenária sobre “Estigma da Obesidade” reuniu debatedores de diferentes regiões, como Clarissa Guedes Noronha (PE), Karina Bassols (RS), Jan Zavaleta e Lígia Maria Martins Vaz Guimarães (SP). Eles debateram a redefinição da forma como o corpo e a obesidade são percebidos pela sociedade.
A palestra de abertura, “O peso do preconceito: como o estigma afeta o acesso à cirurgia bariátrica e metabólica?”, apresentada por Sílvia Elaine Pereira (RJ), discutiu o impacto direto do preconceito no tratamento de pessoas com obesidade. A especialista destacou que muitos pacientes desistem da busca por atendimento médico após experiências negativas, e defendeu campanhas institucionais que promovam empatia e informação.
Em seguida, Michele Pereira da Silva (DF) apresentou “Comunicação sem estigma: como falar sobre obesidade sem reforçar preconceitos?”, enfatizando o poder da linguagem na formação de atitudes. A palestra levou o público à reflexão ao ser encerrada com uma citação de Maya Angelou: “As pessoas podem não lembrar exatamente o que você fez, ou o que você disse, mas elas sempre lembrarão como você as fez sentir.”
Carina Fernandes Barbosa (SP), em “Como a mídia tradicional e as redes sociais perpetuam estereótipos”, traçou uma linha histórica sobre a representação dos corpos ao longo dos séculos. Ela lembrou que, no passado, o corpo gordo era símbolo de status e prosperidade, enquanto a magreza era associada à pobreza. “Hoje, vivemos uma inversão, em que o corpo magro é o ideal, mas o movimento body positive trouxe um respiro importante. O problema é que o mercado sempre tenta cooptar até os movimentos de aceitação. Precisamos voltar a falar sobre saúde física e mental, e não sobre padrão de corpo”, alertou.
Encerrando as apresentações, Mônica Mazzurana (SP), do Hospital Guilherme Álvaro, abordou “Estigma e desigualdade no acesso à saúde: desafios e soluções”, lembrando que a obesidade é uma doença crônica e complexa, influenciada por fatores biológicos e não por “falta de vontade” do indivíduo. Ela apresentou dados alarmantes: nos próximos 20 anos, mais de 1,2 milhão de mortes poderão ser atribuídas ao excesso de peso.
“O estigma retarda o diagnóstico e o tratamento. Precisamos combater a desinformação sobre a cirurgia bariátrica — ela devolve expectativa e qualidade de vida”, afirmou.
O debate que se seguiu destacou a necessidade de capacitar profissionais de saúde para uma comunicação empática e baseada em ciência, além de propor políticas públicas que incluam o combate ao estigma como eixo estratégico no enfrentamento da obesidade.
SBEM | ABESO | SBCBM: integração e ciência no tratamento da obesidade
Na segunda rodada da manhã, a Mesa SBEM, ABESO e SBCBM reuniu grandes nomes da endocrinologia e da cirurgia metabólica. Moderada pelo cirurgião Antônio Carlos Valezi (PR), teve como debatedores José Afonso Sallet (SP), Anna Carolina Batista Dantas (RN) e Luiz Fernando Córdova de la Quintana (DF).
Quem abriu o painel foi o endocrinologista Fábio Rogério Trujilho (BA), do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia (CEDEBA), integrante da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Federación Latinoamericana de Sociedades de Obesidadad (FLASO), e presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO).
Trujilho apresentou a fala: “Medicamentos anti-obesidade: tendências atuais”, destacando o avanço das terapias baseadas em incretinas, como semaglutida e tirzepatida. Segundo ele, os novos fármacos vão muito além da balança, com impacto real em desfechos cardiovasculares e metabólicos.
“O tratamento da obesidade deve focar na melhora da qualidade de vida e funcionalidade. As novas moléculas transformam o manejo clínico, mas o desafio é garantir acesso e combater o estigma”, resumiu.
Na sequência, Juliano Blanco Canavarros (MT), presidente da SBCBM, falou sobre “Custo-efetividade: novos medicamentos x cirurgia bariátrica e metabólica”, com dados comparativos que mostraram a superioridade da cirurgia em eficácia e durabilidade dos resultados. Segundo ele, cirurgias como o bypass gástrico geram perda de 26% do peso corporal em dois anos, contra 5% a 8% obtidos com os fármacos. Sem contar o custo. Uma cirurgia bariátrica é mais custo-efetiva e gera menos custos posteriores ao sistema de saúde, se comparada ao tratamento de dois anos com medicamentos para perda de peso.
“Não é uma disputa entre remédio ou cirurgia. O melhor tratamento é aquele que combina o que o paciente precisa, com segurança e acompanhamento contínuo”, afirmou.
Encerrando a mesa, o endocrinologista Josep Vidal Cortada (Espanha) abordou “A melhor estratégia farmacológica na recidiva de peso pós-cirurgia bariátrica e metabólica”, destacando que o foco do tratamento deve ser sempre individualizado. Ele defendeu a integração entre cirurgia e farmacoterapia como o caminho mais promissor.
“O papel do médico é ajudar o paciente a escolher o que faz mais sentido para sua realidade clínica e emocional. Não existe um único caminho. Existe o caminho certo para cada pessoa.”