O papel do fígado nas doenças metabólicas e sua relação direta com a obesidade foi o tema central da plenária “O foco agora é o fígado”, realizada na tarde desta quarta-feira (22) durante o 25º Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). O bloco, realizado na plenária 2 (Sala Cataratas do Iguaçu), reuniu especialistas nacionais e internacionais para discutir as novas nomenclaturas, estratégias diagnósticas e terapêuticas, além dos desafios da integração entre cirurgia bariátrica, hepatologia e transplante hepático.
Moderada pelo cirurgião Dr. Fábio Viegas (RJ), a sessão contou com debatedores de diversas regiões do país: Carolina Trancoso de Almeida (MG), Aristotenis Cardoso Cruz (DF), Flávio Kreimer (PE) e James Câmara de Andrade (MS). E o debate foi marcado pela diversidade de temas e abordagens.
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Do diagnóstico às novas nomenclaturas
A abertura do bloco ficou por conta do Dr. Pedro Gomes Worms (RJ), que abordou as atualizações nas classificações das doenças hepáticas associadas à disfunção metabólica (NASH, MASH e MASLD), destacando a importância de uniformizar os termos e reconhecer a doença hepática gordurosa metabólica como parte integrante do espectro da síndrome metabólica.
Em seguida, o Dr. Everton Cazzo (SP), da Unicamp, apresentou os critérios atuais para o uso da elastografia hepática no pré-operatório da cirurgia bariátrica, reforçando que o exame deve ser solicitado de forma direcionada e baseada em evidências, especialmente em pacientes com suspeita clínica ou laboratorial de fibrose avançada.
Cirrose, transplante e escolhas cirúrgicas
Na sequência, o Dr. Gustavo Peixoto Soares Miguel (ES) discutiu condutas frente à suspeita de cirrose no intraoperatório, destacando que a decisão de prosseguir ou ajustar a técnica deve sempre considerar a segurança do paciente e o estágio da doença hepática.
Um dos pontos altos da plenária foi a palestra do Dr. Eduardo Fernandes, cirurgião brasileiro radicado nos Estados Unidos, que apresentou experiências de integração entre transplante hepático e cirurgia bariátrica/metabólica. Ele relatou resultados de 60 procedimentos combinados ou sequenciais (36 transplantes realizados antes da bariátrica, 16 durante e 8 após), destacando os desafios técnicos e as lições aprendidas.
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“Estamos ainda aprendendo com cada caso. Há resultados muito positivos, mas também complicações que mostram a necessidade de centros altamente especializados e protocolos bem definidos”, destacou.
O Dr. Luiz Augusto Carneiro D’Albuquerque (SP) deu continuidade ao tema discutindo o papel da MASLD na escolha da técnica cirúrgica. Ele enfatizou que o objetivo central é a regressão da fibrose hepática e que o sleeve gástrico, inclusive em associação com transplantes, tem se mostrado seguro e eficaz em centros de alto volume.
Entre os critérios de decisão, o especialista destacou a preservação da função renal, a avaliação da sarcopenia e o planejamento multidisciplinar envolvendo cirurgiões, hepatologistas, nutricionistas e psicólogos.
“O sleeve transcende o conceito bariátrico tradicional. É uma intervenção hepática, com impacto direto na fisiopatologia da doença”, afirmou.
Encerrando a sessão, o Dr. Eudes Paiva de Godoy (RN) apresentou um panorama sobre a cirurgia metabólica em pacientes com IMC abaixo de 35, ressaltando que, embora as evidências científicas ainda sejam limitadas, há forte base fisiopatológica que justifica o estudo de casos com doença hepática gordurosa associada a disfunções metabólicas.
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Integração é o caminho
O debate que encerrou a plenária reforçou a necessidade de abordagem integrada entre cirurgia, hepatologia, nutrição e psicologia/psiquiatria. Os participantes concordaram que a esteatose hepática não é apenas consequência da obesidade, mas parte ativa do processo inflamatório e metabólico que precisa ser tratado de forma ampla.
“A melhor chance de evitar a falência hepática é realizar uma cirurgia metabólica eficiente, com acompanhamento multidisciplinar”, resumiu um dos especialistas durante a discussão.
Desafios no consultório
Encerrando a programação científica desta quarta-feira, o congresso ainda apresentou o painel “Desafios no consultório – como lidar com casos complexos?”, moderado por Cláudio Renato Penteado de Luca Filho (SP).
A mesa reuniu apresentações do Dr. Roberto Luiz Kaiser Junior (SP), que falou sobre “Doença inflamatória intestinal e obesidade: quando a cirurgia é uma opção viável?”; do Dr. Denis Pajecki (SP), que palestrou sobre “Cirurgia bariátrica e metabólica no idoso: riscos, benefícios e limites”; do Marcos Leão Vilas Boas (BA), que explanou sobre “Cirurgia bariátrica e metabólica no adolescente: riscos, benefícios e limites”; do Dr. Ricardo Cohen (SP), que plaestrou sobre “ Insuficiência renal crônica e cirurgia metabólica: desafios no manejo pré e pós-operatório”; e do Dr. Thiago Patta (RO), do Instituto Vigor, que falou sobre “Trombofilias na obesidade: como reduzir o risco de complicações?”.