O papel da saúde mental no tratamento da obesidade foi o foco da manhã desta quarta-feira (22), durante o primeiro dia do 25º Congresso Brasileiro de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, promovido pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM). O evento, que segue até sexta-feira (24), reúne especialistas de diversas áreas para discutir os aspectos psicológicos e neurobiológicos que influenciam o comportamento alimentar e os resultados da cirurgia bariátrica.
O primeiro bloco de palestras sobre saúde mental contou com moderação da Dra. Fernanda Gamal Duarte e debate das psicólogas Bárbara Generozo Capato (SP), Alice de Freitas Calixto (MA) e Caroline Moraes Amaral Blat Migliorini (SP).
A manhã foi aberta com a palestra da Dra. Larissa Torres Cunha Barros (RJ), que abordou o tema “Neuroinflamação e obesidade: o cérebro inflama e afeta o comportamento alimentar?”. Ela explicou como processos inflamatórios no sistema nervoso central podem interferir na regulação do apetite e na percepção de prazer associada à comida, reforçando a ligação entre aspectos neurológicos e a compulsão alimentar.
Em seguida, a psicóloga Marcela Abreu Rodrigues (DF), host do podcast Papo de Bari, apresentou a palestra “Obesidade e personalidade: impulsividade, perfeccionismo e tomada de decisão alimentar”. Marcela destacou que a cirurgia bariátrica “modifica sinais de fome e saciedade, mas não muda o ambiente em que o paciente vive”, enfatizando a necessidade de reeducar a relação com a comida e aplicar técnicas como o mindfulness para fortalecer o autocontrole.
O psiquiatra Dr. Alexandre Leal Laux (PR) discutiu os “Transtornos psiquiátricos de difícil diagnóstico e sua relação com a obesidade”, destacando a alta prevalência de transtornos de humor, ansiedade e TDAH entre pessoas com obesidade. Segundo ele, compreender a origem dos sintomas é essencial para definir a sequência de tratamento, especialmente em casos de comorbidades como uso de álcool e depressão.
Na sequência, a psicóloga Thais Maynart Machado (SE) falou sobre “Dependência alimentar: conceito real ou uma construção psicológica?”, explicando que alimentos ultraprocessados ativam o mesmo sistema de recompensa cerebral que drogas e álcool, o que pode gerar sintomas semelhantes ao vício. Ela alertou que até 25% das pessoas com obesidade apresentam sinais de dependência alimentar, e que o período pós-cirúrgico requer acompanhamento psicológico intensivo, sobretudo nos primeiros 12 meses.
O psiquiatra Alex Santos Rocha (RJ) tratou do “Transtorno de Personalidade Borderline e obesidade”, ressaltando que um em cada quatro pacientes obesos pode apresentar traços borderline. Rocha destacou o risco de transferência de compulsão alimentar para outros comportamentos, como álcool ou jogos, após a cirurgia. “O sucesso não se mede só em quilos perdidos”, afirmou, defendendo acompanhamento contínuo e terapias específicas, como a Terapia Dialética Comportamental.
Encerrando o bloco, a psicóloga Carolina Mocellin Ghizoni (PR) apresentou a palestra “TDAH e compulsão alimentar: fatores negligenciados no tratamento da obesidade?”. Ela observou que um terço dos pacientes bariátricos pode ter TDAH, o que interfere no controle inibitório e na percepção de saciedade. Segundo Carolina, estudos mostram que a cirurgia bariátrica provoca mudanças cerebrais positivas, reduzindo a estimulação do sistema de recompensa e fortalecendo o autocontrole. “Nosso papel é transformar o cérebro que come por impulso em um cérebro que come com consciência”, resumiu.
Pilares esquecidos no tratamento da obesidade
No segundo bloco da manhã, intitulado “Os pilares esquecidos no tratamento da obesidade – Saúde Mental”, moderado pela Dra. Márcia Michel Khalil (RJ), foram abordadas as relações entre sono e ganho de peso, a síndrome do comer noturno e os distúrbios do sono antes e após a cirurgia bariátrica.
Participaram como palestrantes Thais Costa (GO), Viviane Torres (SE), Gabriela Lemos Negri Rique (PB) e Caio Átila Prata Bezerra de Sousa (CE), que trouxeram novas evidências sobre como o sono e a fadiga impactam o comportamento alimentar e os resultados cirúrgicos.
As discussões desta manhã reforçaram um ponto central do congresso: a obesidade é uma condição multifatorial, que exige abordagem integrada entre medicina, psicologia, psiquiatria e nutrição. O tratamento eficaz, segundo os especialistas, começa no corpo, mas só se sustenta quando também alcança a mente.